sei que às vezes sou útil, confesso
tenho mãos de aranhas pouco curiosas
pernas cabeludas de raspar canela, uns ombros
que se orgulham de servir a alças
tem gente que me vê e OLHA ALI UM CABIDE
então estendo até os cotovelos pra carregar mais peso
tudo enquanto digito, porque sou o cara
em redigir o que já foi escrito

servi de mesa quando precisaram anotar
não é à toa, confesso também:
treino as costas o mais plano possível
e é uma pena as espinhas que levo comigo, elas
distorcem as palavras que são dos outros

fui pedra de massagem com os pés
travesseiro cômodo com a bunda, uma
poltrona-jeans uma vez foi meu colo

sempre, nas segundas-feiras
circulando entre outros objetos da rua
meus joelhos viram manivelas

elas viram, elas giram
elas tombam as portas que evito
enquanto caminho

janelas são recorrentes em textos como esse

olho fora
FORD, SEMINOVOS
eita porra
um tipo barrigudinho, terno
preto camisa desabotoada branca
travessando farrapos
amigos quando falam falam
AY Q ÓTIMO, TRABALHA
PERTO DE CASA
MORA DO LADO DO TRABALHO
SÓ DESCER
meu cafetão é vc que lê
aí vem gente q PORRA MANO
ESSA ANALOGIA NAO DÁ NÉ
e se não dá é pq não serve
e se servisse não estivesse aqui, dsklpa
meus móveis se espalham procurando
cantos cômodos dos cômodos
atenção: 5 estrelas para
JANELA FARRAPOS S01E08, baixar
torrent terront tchurrunt tchan tchumbalatun
vejo o cais daqui, na verdade
não vejo
enxergo as extensões do seus guindastes
como um neonazista-meme-comunista-ayseriogente
apontando pra mais um sol-se-pondo
e imagino
quanto custaria uma tirolesa
de uma janela como a minha
até o guaíba e vice-vers?
às veiz a gente fala q faz
e faz falando e às veiz
não faz, aí vem alguém
NOSSA, PRA QUE FICAR FALANDO
O IMPORTANTE EH FAZER, TO TE DIZENDO
então surge o
BOM, AMIGS, FIKAREI UM TEMPO SEM POSTAR
e um tempo menos que o tempo sem postar
pessoa abre uma EXCEÇÃO, PQ NÉ SAO TEMPOS, AMIGS, TEMPOS DIFICEIS
e quem tem saco explode
quem não tem
desenvolve

gente é aturada o tempo todo

são muito legais, me odeiam
simpáticos porque longe
pau no cu pois no meu

afff uy ufff blé, pode crer
eh nois tmo junto
vai na feh

chegaro os adulto da conversa
fiz um trocadilho com ~maturidade~ na mesa
e chupamos a massa pra preencher o vácuo

umas nove quando ele chegou e instalou
um autorama de 95
construí uma torre de pisa, outro trocadilho
amassei os papéis de parede
parede do muro que circundava a torre
sem jogar no lixo

escrevemos o nome do parque
sobre uma fitinha do sr do bonfim
esticada entre dois palitos: aceite
o combo
estes são os meus restos
na conversa de hj, amigos
temos que
vc fala ALCANÇA O SAL, FAZ FAVOR
cabeça lá escuta
AH SIFUDÊ IRMÃO, PEGA AQUI NO MEU
pai, espero q vc nao esteja lendo esta imprópria
descrição do que é nossa vida, a de todos então
estou escrevendo com as gotas de meus irmãozinhos
que não chegaram antes de mim
ou chegaro e se fuderam pq vamo combinah sou foda vai
pai, tenta lidar com os teus pecados
pq eu tb tenho que
e carrego os nossos abraçados em torno do foodtruck
de comida vegana dos interprédios da PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL
vendo pessoas piores pessoas melhores, não vendo
como é possível
de que maneira elas conseguem se manter de pé
e com eles dar saltinhos enquanto estamos nós dois, pai
nós dois nos obstruindo em nossa deitância, um sanduíche
de gonçalves no calçadão
no meio do caminho dos outros
no meio do nosso caminho, pai

não sei se quando coço a bunda
é a minha ou a tua

somos tão parecidos em nossas nádegas
acho que, na constatação de que alguma coisa ainda coça
o importante é continuar
coçando
um mosquito pesa porque coça depois de já não estar

essa luz que entra, tá vendo
essa luz que entra é no olho
é na boca, é no pé
essa luz que entra é no pé
que antes guardei o próximo chute
que passei talco nas feridas quentes
do sol, mas era na chuva
quando eles chegavam armados
nos dentes, era na chuva
que vinham olhar o que havia dentro
e não havia grande coisa, nada
nunca grande o bastante

um mosquito um estrago nos quartos casais
jogando frases de afeto como troços de bosta
pingando sólidos no branco mais branco que batata-branco, logo depois
NUNCA MAIS USO ESSE BANHEIRO e
NUNCA DIGA NUNCA, VAI SABER
NO APERTO SOMOS TODOS SUJEITOS
CAGANDO PELOS COTOVELOS e
se abraçando, era ignorar
o voo dos pequenos seres
como se não pesassem o bastante
para se tornarem grandes
era de se esperar que
não, pera
evidente que isso ia, não
era lógico que
carayo

a língua escorre nas palavras sábias
tem álcool na saliva
saliva na ceva, sei
te liga
aquele cara ali ó vem pedir um cigarro
tá cantando TA VENDO AQUELA LUA Q BRI
tapinha nas costas, e aí mano
rola uma cigarrera nesse frio dos diabo?
pô, velho, claro, tem fogo?
só tenho mano
vlw flw eh nois, topzera
Q BRILHA LA NO CÉU
SE VC ME PEDIR EU VOU BUSCAR SOH PRA

esse vento tá dizendo
chim, chou chuva chegando
chai logo daí
cheu chuainaraiz da chorra

no desvio das fumaças da nossa mesa

você funda uma bolha-ong provedora de calor
e quando toca o mais próximo, queima
mas é o susto
entenda

todos os caminhantes da cidade de porto alegre
os frequentadores do lado de fora
dos bares, fumantes
todos os cachorros cadelas gatos morcegos
caranguejos do horóscopo que não conheço
todos esses, todos eles
se aquecem encostando as orelhas
sobre o chiado quase mudo
que você produz com o peito
enquanto fuma
eu te falei
viajar faz a gente conhecer
conhecer faz a gente abandonar
mas o abandono é curto
acaba na volta, no encontro
com as coisas que ficam

você traz as novidades com você
e ignora que tudo se mexe, que agora
os lugares têm outros nomes
que o preço da gasolina
que o presidente
que a morte do
que o casamento e o filho da
que grande merda, mas que maravilha
que?

você ri e se lembra de como era
se acha velho, vivido
fora da bolha
dentro
uma caverna

com certa dificuldade, percebe
é preciso apartar
mais uma vez as lembranças
viajar pra dentro
acariciar as pontas que você deixou, soltas
e praticar um único exercício durante
os próximos dias

reconhecer e abandonar
de novo
escovo, todos os dias
os dentes de alguém mais alegre do que eu
visto as roupas de alguém com mais estilo do que eu
fumo uma carteira de cigarro entre dedos menos amarelos
do que os meus

eles são realmente mais nervosos, os meus

tenho as opiniões de alguém mais radical que eu, mais
confiante que eu, menos estúpido, menos eufórico
mais eu que nunca e muito mais que eu

e todos os dias de sangue, esses que esfolam peles mais duras que as minhas, parecem demorar muito menos
que os meus
não dormir à noite enquanto se tenta
é abrir as portas da sala do desespero
é ver aqueles que também não dormem
e competem entre gritos pela atenção de
quem provavelmente
a esta hora
esteja dormindo
briguei com os caras que fui
e acho que ganhei

durante a vida inteira
eles acharam também
como uma rede
cumeça onde termina
balança mais num cai
cheide nó
cheide gente às veiz
sim às veiz, muitas
não
como uma rede que vai
que vem dipois que foi
q ta indo, voltô
ai meldels, como uma
rede que é, que sem
num tem
que quando em cima
dentro, que qdo dentro
braçado de todo lado
enche como uma rede
como uma cama, o drama de
uma rede é ser, virar
tapete
rede q nao eh mais rede
merguiada
deitada
cansada da sua própia
e inevitáv
horizontalidade.
tia onira ensinava a suas netas

princípios básicos da hipnose

algo com os brincos, se me

lembro bem

eu sentava na escada que levava

pro sótão do galpão, onde os ratos

faziam casas de palha, os couros

pendurados nos varais contavam

seis carneações no mês, eu não subia

de medo, o quinto degrau de baixo

pra cima era a minha torre

e de lá eu via a massagem das tetas

um camargo pronto, leite café azúcar
terneiro apartado, e os colares
nós guardamos pra festa, ela dizia
os dedos contornando o pescoço
e não havia colar nenhum, apesar
da festa
da parte de dentro das bombachas, eram
as canelas o termômetro das manhãs
e com o tempo eu aprendi a sustentá-las
com a indiferença do olhar de um animal morto

soube avaliar os limites da lâmina de uma faca

e toda vez que escutávamos os morcegos, à noite
tia onira falava: esse é o gritador, o homem que
cavalgou a própria mãe, virou bola de fogo e agora
busca, perdido, o caminho de casa. e então
fechávamos os olhos com força, cientes
de que as pálpebras eram escudos suficientemente
fortes contra qualquer ameaça.

boa noite, tia

tia onira fechava a porta
e carregava, com ela
a única vela ainda acesa da casa.
venho procurando entre o quarto e a cozinha
nos corredores de casa
que são estreitos mas longos
venho procurando pelo quê e o quando e os
espelhos, há mais de dois
eles pronunciam a tirania das formas, pá
e é como dizem: você é você até você
provar o contrário, um espanto: no caminho
a sala é a cela das iniciativas prontas, ligue
a tv para não se sentir só, um pouco

os pratos os garfos os copos o cheiro

venha comigo buscar a comida que farta os teus anseios
as tuas dobras de carne gordura peito, é o tempero
que falta pra construir juntos a escada que leva
até o mais baixo, já que subir ao contrário
pode ser que seja aquilo que quase sempre
estivemos querendo.
vem a noite
e surgem as caras iluminadas
aos olhos, parece claro que
nos tornamos ligeiramente pálidos
enquanto dura a bateria
Existe uma pausa. Um hiato. Meio segundo antes do espirro. É o vácuo. O limbo. Fábricas e motores, alarmes de casas e veículos. Ar comprimido. É feriado em algum lugar do país. Crianças metem celulares pelo vão do sofá da sala e descobrem nos calcanhares a medida das ruas. São largas, duplas. Diagonais. Triângulos de ângulos obtusos. Objetivo: encontrar o alfa pela tangente; comer pela beirada os ribeirinhos. Existe uma causa. Uma força. Um pelo quê. A tosse. Contrai-se o abdômen para expulsar a fleuma. A doença está acumulada debaixo das unhas. É preciso cortá-las, mas então com que alcançar as sobras? É preciso cortá-las, enjaulá-las em suas ambições de osso, e nunca descartá-las. Existe o gozo. Tempo de estocar as remessas de carne. O espasmo, a risada, o arrepio. O grito. Entende-se: ainda que nos galhos secos do inverno, os velhos um dia já produziram as suas cores quentes. Quem vê um velho vê um velho - não o que foi, senão o que está. Existe a pausa, existe a causa, existe o gozo. Existe o inverno e nele existe o velho, deitado eternamente em tons azuis de retidão.

entrega

reconheço a distância todos os teus sinais
de fogo. onde há fumaça, há você fumando
onde há imagens, a fotógrafa é você
a modelo, o filme se tivesse
a química o negativo a revelação
seriam você.

os bares que não frequento
as festas, as músicas que só você

os dois caminham sobre pedras que
se acostumaram a encaixar com o
tempo. estátuas de mármore aprendem
o movimento do aplauso, e é ovação
quando vocês atravessam moles
a dureza delas.

as ruas que não frequento
os becos, lugares que só você

imagino vocês sobre pontes inexistentes
mas que, resistentes e sólidas na minha história
conectam pontos a favor e contra, por isso
abandono minha arma aos seus pés
façam o que quiserem com ela
a mim não me resta serventia
ainda que eu tente
com todas as minhas forças
pesar o dedo no gatilho
levo dragões dentro do bolso
e sei que os outros levam também

quando nos enfrentamos
eles se queimam como palavras
através do tecido das calças
os meus estão certos, eu digo
os meus estão certos, você diz
e eles cospem fogo pelo nariz
enquanto nos olhamos
amigavelmente
uma pessoa, por gostar de outra pessoa, compra
livros no lugar de chocolates, livros no lugar de joias
livros com café no lugar de roupas, livros que eram
seus para presentear essa outra pessoa; e durante
o percurso entre as estantes, agora meio vazias
depois de tantos presentes, a pessoa que compra
livros e que presenteia cada outra pessoa que ama
que vê pela frente, sente que está indo longe demais
ao deixar kafkas becketts borges parras llosas pra trás
sem, com isso, construir uma pirâmide também de livros
sustentada na base pelos clássicos, costurada no meio
pelos contemporâneos e adornada, no topo, com o
rascunho do que um dia pode vir a ser uma história
em conjunto
sempre tinha a cabeça baixa

porque lia

venezuelan dream

você me prometeu que ia a passeio
que talvez descolasse uma grana
que era tudo temporário
e não havia com o que
se preocupar

era tarde e o voo
amanhã cedo

como sempre, estávamos atrasados
e tranquilos com isso

você me fez prometer que te esperaria
e o pacote de feijão
que havíamos comprados juntos
no mercado do mês
eu catei contando os dias
todos os grãos estavam bons
não havia pedras no caminho
era tudo tão livre, tão
desimpedido
que passei a enxergar
o efeito positivo que existe
ao jogar um chiclete no asfalto.
descobri, pesquisei:
não contamina
adere-se ao concreto, à borracha
com sua força de agarrar dentes
e permanece
ao fim de tudo
apenas rua
macha clara no tapete de
veículos

você me prometeu
a distância
que a distância inflaria
a saudade, que a saudade
inflaria o amor e que
ainda me amava tanto
mas tanto
que alargaria a viagem
pra carregar de ausência
a nossa falta
tudo por amor, você disse
inflar o amor
inflar a saudade
aumentar as distâncias
provocar as carências
você disse

não prometi nada.

nesses tempos eu já
tinha compaixão por
tubarões, comia
coelhos patos rãs lagartos
animais em extinção
com a fome de leões

acabava de escrever duas teses sobre
o desaparecimento de personagens insignificantes
na literatura brasileira
falei que tive que reescrever?
duas teses as mesmas vezes
terminei por entender da morte
e seus argumentos como
uma suicida não praticante

sempre mantive certa distância
certa imparcialidade
em relação à pesquisa
você sabe

acompanhei por mais algumas semanas
as suas notícias pelos outros
as suas notícias para os outros
enquanto, nas luas de desejo
depilava os pelos pelo
atrito natural dos corpos

era tarde, nós sabíamos
mas mesmo atrasados
como sempre
quanto a isso

estávamos tranquilos

relatório de autópsia

abrimos dois corpos e sacamos deles
dois outros corpos
e abrimos
e sacamos deles
dois outros corpos
e sacamos que
os primeiros dois corpos que abrimos
dois homens de mãos agarradas
que fugiam juntos de outros homens
que não tinham as mãos agarradas
pois ocupadas por tochas e lanças e gritos
os primeiros dois corpos que abrimos
se repetiriam cada vez que fossem abertos
e nunca voltariam a estar fechados
e se tentássemos recolocar
todos os dois que saíram dos primeiros dois
dentro de todos os dois que sacamos deles
perderíamos os braços
amputados por uma explosão
de dois corpos homens
ainda
e desde o início
agarrados pela mão

não parecer

não parecer bobo
não parecer burro
não parecer solitário
não parecer estranho avulso mas
não parecer intrometido
não parecer falso
não parecer apaixonado
não parecer parecido demais
não parecer inapto
não parecer perdido
não aparecer o braço para
não parecer que não há fotógrafos
não parecer muito baixo
nem parecer muito alto
não parecer absurdo
não parecer um fracasso
não parecer com grana
não parecer sem ela
não parecer frágil
não parecer invejar
não parecer alegre em excesso
não parecer que não se importa
não parecer chorar
não parecer intenso de forma alguma
não parecer de poucos amigos
não parecer perecer
jamais

infantaria

ganharíamos a guerra
se todas as cartas de amores
que não puderam esperar
fossem interceptadas

um poema que falta em novo hamburgo

falta um poema que reboque as paredes subliminares de novo hamburgo
que discuta suas ruas de vocábulos indígenas com maior índice de assalto
e roubo de veículos
um poema que narre as aventuras de fim de semana em novo hamburgo
shopping para os mais novos
shopping para os de meia-idade
corredores de shopping para os aposentados
(primeiro andar apenas)
mesmo em novo hamburgo
shopping para estância velha
shopping para ivoti morro reuter dois irmãos
são leopoldo procura filmes que não passam em são leopoldo
para ver no cinema do shopping
em novo hamburgo

falta um poema que experimente os rancores da queda do calçado
o chão está cheio deles
e não se sabe o que fazer com tantos
vesti-los ou descartá-los
como a vida

um poema que se dedique à chegada do trem a novo hamburgo
e com ele
possibilidades infinitas de não estar
em novo hamburgo
que pergunte a si mesmo e a seus leitores
onde foi parar aquela cidade tão
e que não saiba como completar
memória boiando no ar espesso do município

há detalhes que não precisam constar num poema que fale de novo hamburgo
o fato de cada criança nascer
um parêntese aberto
entre parentes e chapéus apertados
em hospitais que levam o nome de mulheres, por exemplo
isso é um detalhe desnecessário
a um poema que discorra sobre novo hamburgo

ainda falta um poema que viralize em novo hamburgo
que espalhe seus vícios como panfletos
jingles nomes números em outubro
um poema que coloque uma marca no lugar
que escreva junto à placa de boas vindas

estive lá e decidi voltar

push

excesso de baba
rolha que não entra mais
na garrafa

gotas de chá não fazem chover ervas

morder a língua para calar o beijo
chileno era o filme
teus cílios itálicos
legenda

ler de olhos fechados
valoriza o fato
é tato
não mais que
tanto, pois ainda agora
há que secar a saliva, enfiar a
tampa
delicadamente
pelo gargalo
bom mesmo é quando
o que é sempre o mesmo
é bom

2016

cravam-se as unhas para descobrir o osso
cava-se fundo na altura do pulso
tranquilize-se
atitudes como essa fazem o sangue correr grosso, depressa
uma mão para estancar a morte
agarre-a
usufrua do cambalear do corpo
deixe-a ir quando sentir-se
forte, registre numa planilha excel
tabela 1: tantos litros por minuto
tabela 2: motivos
faça as contas, anote
as observações necessárias para
repetir, mais tarde
o procedimento
os riscos devem ser controlados, portanto
ponha o que está fora
dentro
recomponha-se
a agenda está cheia
e é preciso estar recuperado
para o próximo
evento.
uma noite só
são noites
não me dê
flores
me dê
lei
tores

hay un camino

entrar em juízo quando não estamos ganhando, essa é
a saída
bambolear fios de lucidez em terra movediça
ontem arremessamos
contra uma parede de pernas verdes, pedras
gases marcavam o nosso caminho
balas eram estrelas de borracha num céu nublado
mergulhada na tosse, você disse
você tentou dizer
tranquilo, estoy contigo
amigos temperavam o ar com vinagre
ouvimos vozes, ouço
PRETOPOBREPUTOMONOMACACO, MIDE
TU TAMAÑO, VOLTE PARA O SEU
BARRACO, eu lembro
como um sopro no olho aberto
elas vinham do seu lado
mesmo gritando mais alto, rugindo
era impossível apagar o rastro
antes que notassem
nossas pedras deslizaram pelas mãos, sem obstáculos
e durante um par de segundos
atrasando os movimentos para despistá-los
estivemos a ponto de perceber por que
por quem
não havíamos lutado.

diálogo #2

tu sabe que tu me marcou.
sei.
profundo.
sei.
e eu, não te marquei?
sim, marcou.
profundo?
é.
e não vai seguir mesmo assim?
não. não dá. preciso ir.
tá perigoso por aí.
por aqui também.
vem comigo, eu te deixo na parada.
não quero.
não vale a pena arriscar a vida por isso.
exatamente.
então?
a gente segue sozinho daqui.
ah, amor, vem.
não quero.
então deixa eu chamar um táxi.
não quero.
uber?
não.
porra, o que tu quer então?
eu quero uma
o quê?
uma selfie.
quê?
uma selfie.
tá falando sério?
tô, mas tranquilo.
tranquilo quê?
eu te marco.
isso
tudo ficou muito mais sério
depois de tanto
riso

no trem no banco no meu lado, uma senhora

no trem no banco no meu lado, uma senhora
enfia a cara no chapéu e eu
não fui eu, fiz nada ô
tenho nada a ver com isso
e começa a declamar o pai-nosso, é bonito
porque não sou eu, é ela
e é bonito é eloquente é verdadeiro
mesmo que não seja
e a próxima estação é um sorvete, não
um big foda tasty dos grandes pra matar
a ansiedade de não encher
a barriga nessas franquias de pague a metade do dobro
então explode uma bomba na tv
fico sabendo que é lá onde há suicidas
que drama
um dólar a quatro, desço
comprar algumas coisas, a grana
a grana não alcança
pago no cartão, o cartão
sempre alcança
duas caixas de leite, uma
de cigarro, puta
tá quente essa porra
os dois ares de casa ligados
todas as portas fechadas
um colchão no meio da sala
e uma tv, o programa é
descansar os ombros na base do sofá
perder o controle entre três controles e aguardar
a próxima bomba
estourar
passei a franzir o cenho
quando acendi, há dois anos
meu primeiro cigarro
efeito disso
carrego dobras sobre o meu
rosto, uma pedra
piso uma pedra solta na vastidão
da calçada das seis
tenho cinquenta reais
no bolso e não consigo
troco
dizem: é um exagero
moço
o suor cascateia pelas minhas
dobras, apago o cigarro
rio na testa
confesso comigo mesmo
sério por todo o corpo
na minha ideia, sorrindo
é quase impossível secar por
completo
os líquidos que
produzo enquanto
caminho
há luz naquela janela
tenho tempo
busco no bolso a chave
celular cartão carteira de motorista moeda porra chave
isso, chave
meto no troço, giro
bip de porta aberta, bato
segunda chave
qual é mesmo, abro
segunda porta
bip de porta aberta, bato
há luz naquela janela
térreo, me lembro
não há elevadores no prédio
escada, são sete andares
tenho tempo, caminho corro
passo de degrau duplo
primeiro andar
não conheço os vizinhos
pode ser que sejam bacanas
pode ser que estejam
escadas, passo duplo pulo
há luz naquela janela
quarto andar, vou rápido
vultos vidas escorrem por debaixo
das portas tapetes de boas vindas cheios de merda
de fora
quinto, sexto
passo corro pulo caminho duplo
é o sétimo, respiro
profundo, já tenho
desde o térreo
a chave certa na mão
na argola, o dedo
chave
meto no troço, giro
escuro
sempre escuro, entro
tateio o concreto nem tão frio
é a pintura, um metro
interruptor
acendo, tenho tempo
e mesmo assim
sendo
há luz naquela janela.
quando a gente tá de passagem
todas as pequenas coisas
todas essas solitárias e pequenas
coisas que
se nada fosse tão temporário
seriam apenas coisas pequenas
todas elas são
de um peso olímpico
meu exercício é trocar a posição
pra formigar
menos
agradeço aos arquitetos que
me proporcionam a abstração
ao olhar pra cima e aos
pedreiros que puseram as
pedras quando olho pro
chão
deixei de rezar por preguiça
agora tenho preguiça por convicção
mais tarde, quando
eu for tirar a tua calcinha e
você disser
eu não uso
como a perna de um amputado
que já não tem perna
mas sem a gravidade que é
não ter
abrirei caminhos pelos pelos
e com a vela na ponta dos dedos
profundo, te singrarei
subir ao palco
cravar novos pregos na madeira antiga
é uma outra peça que se inicia
uma que falte ou que sobre
em breve saberemos
decorado o texto, a fala é o de menos
você está pronto para o primeiro ensaio
tem vinte e poucos anos
e errar não é errado
as cortinas já estão abertas
sempre estiveram, à sua espera
o próximo passo é um salto
e você percebe que aí está o vão entre
os seus pés e os que ali estão
sentados
discutindo sem abrir a boca sobre o quão
exagerados são seus movimentos de braço
como é capaz de levantar as sobrancelhas sem mover
as orelhas?
ele não deveria estar fazendo teatro
olhe o tamanho dos seus cadarços!
mais tarde virá um tropeço
você sabe que não será acidental
e se fosse, entenderíamos
é só o começo
aprendemos juntos a controlar a respiração
empurrar o abdômen, abrir as costelas
encher o pulmão
não subir os ombros a não ser que não se importe
mas você se importa
pois então
chegou o instante do pulo
o momento de ser ou não ser eis combustão
força na planta do pé
aquecer os tornozelos
agora é a hora de nossa sorte
amei, alguns irão dizer
porém você não prevê:
saltar antes que seja tarde sobre o maior número de cabeças
que alcançar
erguer-se por cima de outros ombros e
certificar-se de que algumas dessas, cabeças
irão rolar.
os outros sempre parecem ter voz de certeza
e quando eu falo
sai tudo cortado
só não sai
quando eu me pareço
aos outros
encontre num emaranhado de páginas perto
uma palavra que defina seu espírito
porta
sinta vibrar em seu intestino
a ânsia, o mal de não estar
bem, busque na palma da mão as linhas
o traço que define a curva
pegue a primeira saída à esquerda
porta
um gato exala os vapores da tua
fossa
entre de mansinho no escurinho de outras
saias
coce as pegadas de um recém pisado
assuma a venda do corredor de cigarros
não fume o vermelho
venda mais barato
as damas de branco procuram o preto
as de preto, o branco e jantam
saia da caixa de sapatos que contém botas
o mundo é maior que o teu parto
sinta o gosto do sêmen na ponta dos dedos
chega de tabelinha
mergulhe no desespero
atrase o voo das gotas de chuva
cante serenatas olhando de cima
socando o de baixo
arrede as cadeiras da sala de jaula
pinte um tapete vermelho de preto
existe um funeral ali perto
porta
palavras ainda boiam na superfície dos teus olhos
crave na unha a faca dos teus desejos
porta
haverá uma fogueira
dois litros e gramas de álcool
um último fósforo pra se desperdiçar
risque na língua
mas antes
espere secar
teu rosto é lindo
nesse espelho
que não é espelho
e é um quadro
de um rosto
que não é teu rosto

mas é
absolutamente
lindo

esse teu gosto
o grito
do fundo do poço
tem que ser mais alto
me apaixonei pelo branco dos teus olhos
e por isso tu é linda
quando não pisca
fumo porque bebo
bebo porque vivo
vivo porque muerto
atiro pra todos os lados
como o soldado que vai caindo
morto
outro dia em um vão

TRENSURB INFORMA

senhoras e senhoras passageiros, bom dia
são exatamente sete e quarenta e quatro da manhã e nossa
previsão de chegada à estação mercado
é às oito e quarenta e cinco, informo
a todos que este trem partirá
imediatamente
espero que, apesar das condições climáticas
tenhamos uma boa viagem
obrigado

ESTAÇÃO FENAC
lembre-se de não apoiar-se nas portas e estar
atento ao vão entre a plataforma e o trem
uma boa viagem
obrigado

ESTAÇÃO INDUSTRIAL/TINTAS KILLING
comércio e vendas de qualquer gênero estão
proibidas no interior dos vagões e estações
então não compre nada, não dê
esmolas
uma boa viagem
obrigado

ESTAÇÃO SANTO AFONSO
uma boa viagem
obrigado

ESTAÇÃO RIO DOS SINOS
senhoras e senhoras passageiros, este trem
se deus quiser
irá até a estação mercado
uma boa viagem
obrigado

ESTAÇÃO SÃO LEOPOLDO
hoje é terça-feira, dia de acreditar em você
acredite em você
acredite em você
acredite em você obrigado
uma boa viagem
obrigado

ESTAÇÃO SAPUCAIA
atenção atenção, passageiros
pense nos outros passageiros que embarcaram
antes de você
e não conseguiram, sinto muito
assento
o próximo trem partirá vazio desta
mesma estação, acredite
em você
tenha um bom dia

ESTAÇÃO LUIZ PASTEUR
uma boa viagem
obrigado

ESTAÇÃO ESTEIO
sorria, passageiro
sorria sempre
sorria bonito
sorria muito
sorria rude, porque
se você sorrir obrigado
só arrecadará mais sorrisos
durante a viagem
uma boa viagem
obrigado

ESTAÇÃO PETROBRÁS
próxima estação:

ESTAÇÃO SÃO LUÍS
agora vamos deixar
são luís, dar as mãos ao passageiro do lado
invocar santo antônio, dedos cruzados
uma boa viagem
obrigado

ESTAÇÃO MATHIAS VELHO
veja você, passageira
ao sair da estação, esteja atenta
se ouvir
bonitinha, onde vai você
sessenta por cento das estatísticas dizem que em
noventa e cinco por cento dos casos
é uma cilada
tenha uma boa viagem, passageira
obrigada

ESTAÇÃO CANOAS
bom dia
grande dia
feliz dia
inundável, canoas
inundável dia a todos que vão à estação mercado
aos outros também
uma boa viagem
obrigado

ESTAÇÃO FÁTIMA
agora leremos um poema do trem, ele diz
o verdadeiro poema do trem começa e termina na mesma linha
ótimo trocadilho, eim
é engraçado
uma boa viagem
obrigado

ESTAÇÃO NITERÓI
senhoras e senhores passageiros
vocês estão vendo os carros ali ao lado, parados?
sorria, sorria e abane
você está sentindo seus sorrisos de volta?
não?
prossiga
e agora? ainda não?
se não, então deve ser porque vamos mais
rápido
não há tempo
uma boa viagem
obrigado

ESTAÇÃO ANCHIETA
uma boa viagem
grato

ESTAÇÃO AEROPORTO
não sou profundo conhecedor de signos, porém
caso as telinhas que vão mostrando não sejam suficiente
elucidativas
para o bem de cada vagão
posso dizer que tudo vai estar
bem
obrigado

ESTAÇÃO FARRAPOS
senhoras e senhoras passageiros, nesta estação
me manterei calado
uma boa viagem
obrigado

ESTAÇÃO SÃO PEDRO
finalmente poderei informá-los, pois
a temperatura neste exato momento é de
vinte e cinco graus celcius, cinquenta e sete
fahrenheit, o que me lembra
um livro, não
foram queimados, era isso
uma boa viagem
muito obrigado

ESTAÇÃO RODOVIÁRIA
lembre-se de pegar o trem
obrigado

ESTAÇÃO MERCADO
senhoras e senhores passageiros, agora
são exatamente oito e quarenta e cinco da manhã
agradeço a todos pela colaboração, foi
um prazer
único
acompanhá-los durante essa travessia
contatos para condução
de trens
andrei o trem e você 9954 6454, foi
com certeza
uma boa viagem
obrigado