entrega

reconheço a distância todos os teus sinais
de fogo. onde há fumaça, há você fumando
onde há imagens, a fotógrafa é você
a modelo, o filme se tivesse
a química o negativo a revelação
seriam você.

os bares que não frequento
as festas, as músicas que só você

os dois caminham sobre pedras que
se acostumaram a encaixar com o
tempo. estátuas de mármore aprendem
o movimento do aplauso, e é ovação
quando vocês atravessam moles
a dureza delas.

as ruas que não frequento
os becos, lugares que só você

imagino vocês sobre pontes inexistentes
mas que, resistentes e sólidas na minha história
conectam pontos a favor e contra, por isso
abandono minha arma aos seus pés
façam o que quiserem com ela
a mim não me resta serventia
ainda que eu tente
com todas as minhas forças
pesar o dedo no gatilho
levo dragões dentro do bolso
e sei que os outros levam também

quando nos enfrentamos
eles se queimam como palavras
através do tecido das calças
os meus estão certos, eu digo
os meus estão certos, você diz
e eles cospem fogo pelo nariz
enquanto nos olhamos
amigavelmente
uma pessoa, por gostar de outra pessoa, compra
livros no lugar de chocolates, livros no lugar de joias
livros com café no lugar de roupas, livros que eram
seus para presentear essa outra pessoa; e durante
o percurso entre as estantes, agora meio vazias
depois de tantos presentes, a pessoa que compra
livros e que presenteia cada outra pessoa que ama
que vê pela frente, sente que está indo longe demais
ao deixar kafkas becketts borges parras llosas pra trás
sem, com isso, construir uma pirâmide também de livros
sustentada na base pelos clássicos, costurada no meio
pelos contemporâneos e adornada, no topo, com o
rascunho do que um dia pode vir a ser uma história
em conjunto

você tem sorte

você tem sorte de ter nascido branco
você é privilegiado
você tem sorte de ser negro
você tem cotas
você tem sorte de estar na universidade
você tem futuro
você tem sorte de apenas trabalhar
não leva tarefa pra casa
você tem sorte de ter as duas pernas
você caminha de um lado a outro
e não precisa de rodas se não quiser
você tem sorte de estar velho
você fura filas
você está na flor da idade, por isso
você tem sorte
você tem sorte de ter pais
você é amado
você tem sorte de morar sozinho
você é independente
você tem sorte de ter uma companhia
você compartilha a felicidade
você é feliz porque é solteiro, que
sorte você tem
você tem sorte de ser homem
você mija em pé em qualquer lugar
e ninguém liga pra você
você tem sorte de ser mulher
você pode parir, gerar uma vida
veja só, uma vida nas suas mãos
você tem sorte por saber escrever
consegue jogar fácil tudo pra fora
você tem sorte de não parar pra pensar
você age no lugar
você tem sorte de ter muitas certezas
sabe sempre o que fazer
você tem a sorte de voltar atrás
é bom não ser orgulhoso, recomeçar
você tem tanta sorte que foi muita
sorte, muita sorte mesmo
poder enumerar.
sempre tinha a cabeça baixa

porque lia

venezuelan dream

você me prometeu que ia a passeio
que talvez descolasse uma grana
que era tudo temporário
e não havia com o que
se preocupar

era tarde e o voo
amanhã cedo

como sempre, estávamos atrasados
e tranquilos com isso

você me fez prometer que te esperaria
e o pacote de feijão
que havíamos comprados juntos
no mercado do mês
eu catei contando os dias
todos os grãos estavam bons
não havia pedras no caminho
era tudo tão livre, tão
desimpedido
que passei a enxergar
o efeito positivo que existe
ao jogar um chiclete no asfalto.
descobri, pesquisei:
não contamina
adere-se ao concreto, à borracha
com sua força de agarrar dentes
e permanece
ao fim de tudo
apenas rua
macha clara no tapete de
veículos

você me prometeu
a distância
que a distância inflaria
a saudade, que a saudade
inflaria o amor e que
ainda me amava tanto
mas tanto
que alargaria a viagem
pra carregar de ausência
a nossa falta
tudo por amor, você disse
inflar o amor
inflar a saudade
aumentar as distâncias
provocar as carências
você disse

não prometi nada.

nesses tempos eu já
tinha compaixão por
tubarões, comia
coelhos patos rãs lagartos
animais em extinção
com a fome de leões

acabava de escrever duas teses sobre
o desaparecimento de personagens insignificantes
na literatura brasileira
falei que tive que reescrever?
duas teses as mesmas vezes
terminei por entender da morte
e seus argumentos como
uma suicida não praticante

sempre mantive certa distância
certa imparcialidade
em relação à pesquisa
você sabe

acompanhei por mais algumas semanas
as suas notícias pelos outros
as suas notícias para os outros
enquanto, nas luas de desejo
depilava os pelos pelo
atrito natural dos corpos

era tarde, nós sabíamos
mas mesmo atrasados
como sempre
quanto a isso

estávamos tranquilos

relatório de autópsia

abrimos dois corpos e sacamos deles
dois outros corpos
e abrimos
e sacamos deles
dois outros corpos
e sacamos que
os primeiros dois corpos que abrimos
dois homens de mãos agarradas
que fugiam juntos de outros homens
que não tinham as mãos agarradas
pois ocupadas por tochas e lanças e gritos
os primeiros dois corpos que abrimos
se repetiriam cada vez que fossem abertos
e nunca voltariam a estar fechados
e se tentássemos recolocar
todos os dois que saíram dos primeiros dois
dentro de todos os dois que sacamos deles
perderíamos os braços
amputados por uma explosão
de dois corpos homens
ainda
e desde o início
agarrados pela mão

não parecer

não parecer bobo
não parecer burro
não parecer solitário
não parecer estranho avulso mas
não parecer intrometido
não parecer falso
não parecer apaixonado
não parecer parecido demais
não parecer inapto
não parecer perdido
não aparecer o braço para
não parecer que não há fotógrafos
não parecer muito baixo
nem parecer muito alto
não parecer absurdo
não parecer um fracasso
não parecer com grana
não parecer sem ela
não parecer frágil
não parecer invejar
não parecer alegre em excesso
não parecer que não se importa
não parecer chorar
não parecer intenso de forma alguma
não parecer de poucos amigos
não parecer perecer
jamais

infantaria

ganharíamos a guerra
se todas as cartas de amores
que não puderam esperar
fossem interceptadas

Orelha do livro

Aqui neste excesso de capa
estou eu dizendo que esta nar-
rativa é grandiosa, que car-
rega de perto o leitor, pene-
trando no misterioso mundo
do protagonista e exigindo
que as páginas sejam devo-
radas do início ao fim sem
se pregar um só olho. Repito
isso em outras palavras, para-
fraseio. Comento algo sobre
o estilo único do autor, ressal-
tando o fato de o narrador
discorrer sobre a identida-
de do indivíduo mergulhado
nos conflitos urbanos da
pós-modernidade alienada.
Faço um jogo de palavras
com o título, que é para dar
a ideia rasa de que li com cer-
ta profundidade; cito grandes
clássicos, comparo, adivinho
futuros Machados, Borges,
Kafkamões, Cervantes, po-
nho a figura do autor entre
eles, fecho com uma frase
de efeito e tudo deixa muito
claro que abro caminho não
apenas para a obra, mas pa-
ra quem a escreveu e dese-
ja escrever orelhas para ou-
tros que ainda não entraram
no círculo.

Assino,
deixo um espaço em branco
e, mais tarde, surgiro ao edi-
tor uma pequena biografia
minha em três palavras que
remetam a mim o máximo
de autoridade possível, e tu-
do isso em [i/]itálico[/i].

um poema que falta em novo hamburgo

falta um poema que reboque as paredes subliminares de novo hamburgo
que discuta suas ruas de vocábulos indígenas com maior índice de assalto
e roubo de veículos
um poema que narre as aventuras de fim de semana em novo hamburgo
shopping para os mais novos
shopping para os de meia-idade
corredores de shopping para os aposentados
(primeiro andar apenas)
mesmo em novo hamburgo
shopping para estância velha
shopping para ivoti morro reuter dois irmãos
são leopoldo procura filmes que não passam em são leopoldo
para ver no cinema do shopping
em novo hamburgo

falta um poema que experimente os rancores da queda do calçado
o chão está cheio deles
e não se sabe o que fazer com tantos
vesti-los ou descartá-los
como a vida

um poema que se dedique à chegada do trem a novo hamburgo
e com ele
possibilidades infinitas de não estar
em novo hamburgo
que pergunte a si mesmo e a seus leitores
onde foi parar aquela cidade tão
e que não saiba como completar
memória boiando no ar espesso do município

há detalhes que não precisam constar num poema que fale de novo hamburgo
o fato de cada criança nascer
um parêntese aberto
entre parentes e chapéus apertados
em hospitais que levam o nome de mulheres, por exemplo
isso é um detalhe desnecessário
a um poema que discorra sobre novo hamburgo

ainda falta um poema que viralize em novo hamburgo
que espalhe seus vícios como panfletos
jingles nomes números em outubro
um poema que coloque uma marca no lugar
que escreva junto à placa de boas vindas

estive lá e decidi voltar

push

excesso de baba
rolha que não entra mais
na garrafa

gotas de chá não fazem chover ervas

morder a língua para calar o beijo
chileno era o filme
teus cílios itálicos
legenda

ler de olhos fechados
valoriza o fato
é tato
não mais que
tanto, pois ainda agora
há que secar a saliva, enfiar a
tampa
delicadamente
pelo gargalo
bom mesmo é quando
o que é sempre o mesmo
é bom

2016

cravam-se as unhas para descobrir o osso
cava-se fundo na altura do pulso
tranquilize-se
atitudes como essa fazem o sangue correr grosso, depressa
uma mão para estancar a morte
agarre-a
usufrua do cambalear do corpo
deixe-a ir quando sentir-se
forte, registre numa planilha excel
tabela 1: tantos litros por minuto
tabela 2: motivos
faça as contas, anote
as observações necessárias para
repetir, mais tarde
o procedimento
os riscos devem ser controlados, portanto
ponha o que está fora
dentro
recomponha-se
a agenda está cheia
e é preciso estar recuperado
para o próximo
evento.
uma noite só
são noites

x

dentes atuando
uma cortina de rugas se abre cada vez que
sorrio, evito passar
muito tempo pressionando as bochechas
entristecer é meu creme de beleza
trate de permanecer inerte, invente
outra maneira de rir, pisque
o cu, bata
palmas, estale os dedos
ninguém liga pra mão, pelo menos
FOTO, venha tirar uma foto com a família
chame os seus amigos sua mãe a gostosa
da sua prima
Lembra dele?
não, não lembro
Parabéns, você está lindo
homem feito
obrigado, mesmo não indo
eu sempre fui, obrigado
E esses dentes, ein?
é, tem sido difícil
no momento
manter o sorrisOLHE O
TAMANHO, OLHE O TAMANHO
desse guri, igual
à mãe, igual
ao pai, igual
zinho igualzinho
Onde foi que te roubaram, que viveste
mesmo? e a namorada, deixaste
lá?

o salão está adornado de serpentes
e a nossa natureza
é enrolar
não me dê
flores
me dê
lei
tores
desisto dos planos
pq quero relevo

hay un camino

entrar em juízo quando não estamos ganhando, essa é
a saída
bambolear fios de lucidez em terra movediça
ontem arremessamos
contra uma parede de pernas verdes, pedras
gases marcavam o nosso caminho
balas eram estrelas de borracha num céu nublado
mergulhada na tosse, você disse
você tentou dizer
tranquilo, estoy contigo
amigos temperavam o ar com vinagre
ouvimos vozes, ouço
PRETOPOBREPUTOMONOMACACO, MIDE
TU TAMAÑO, VOLTE PARA O SEU
BARRACO, eu lembro
como um sopro no olho aberto
elas vinham do seu lado
mesmo gritando mais alto, rugindo
era impossível apagar o rastro
antes que notassem
nossas pedras deslizaram pelas mãos, sem obstáculos
e durante um par de segundos
atrasando os movimentos para despistá-los
estivemos a ponto de perceber por que
por quem
não havíamos lutado.

os olhos na nuca

nasci achando que o que era sombra era sol
e o que era sol era sombra
e o que me ofuscava era escuro
e o que eu não via era luz.
quando minha mãe falava
sai do sol, guri, vai te queimar
eu saía de baixo do guarda-sol
porque
segundo eu
ele guardava todo o sol
que podia me queimar. e eu me queimava na sombra.
as pessoas não entendiam porque eu não podia
abrir os olhos no escuro
eu dizia
eu não consigo ver
é tanto sol que eu não consigo ver.
e quando me convidavam pra ver o pôr
eu via o nascer
e no nascer
eu via o pôr
e por acaso
num desses pores que nascem
e nascidas que põem
eu vi você
mas você não viu.
era tudo tão claro
tão nascente em mim
só que em você
em você não
pra você não era dia
e sem que me visse
poente que só
nessa noite tão clara
você foi embora
mas foi embora chegando
devagar sendo rápido
me deu um beijo e um tapa
e quando o dia anoitava
muda, você me disse
tenho que voltar, já é tarde
e eu respondi que
nunca era cedo demais pra tentar
mas você já chegava indo embora
e eu só tive tempo de dizer
oi,
o tchau mais curto do meu mundo e da história.
guardei a calcinha que deixaste
supostamente perdida, tapada
pelas cobertas
guardei debaixo dos meus cachecóis
envolvida num plástico, a vácuo
existe um contraste aí
não é a cor
e eu gosto
chove em paris

eu não estou em paris
mas chove também

diálogo #2

tu sabe que tu me marcou.
sei.
profundo.
sei.
e eu, não te marquei?
sim, marcou.
profundo?
é.
e não vai seguir mesmo assim?
não. não dá. preciso ir.
tá perigoso por aí.
por aqui também.
vem comigo, eu te deixo na parada.
não quero.
não vale a pena arriscar a vida por isso.
exatamente.
então?
a gente segue sozinho daqui.
ah, amor, vem.
não quero.
então deixa eu chamar um táxi.
não quero.
uber?
não.
porra, o que tu quer então?
eu quero uma
o quê?
uma selfie.
quê?
uma selfie.
tá falando sério?
tô, mas tranquilo.
tranquilo quê?
eu te marco.
isso
tudo ficou muito mais sério
depois de tanto
riso

no trem no banco no meu lado, uma senhora

no trem no banco no meu lado, uma senhora
enfia a cara no chapéu e eu
não fui eu, fiz nada ô
tenho nada a ver com isso
e começa a declamar o pai-nosso, é bonito
porque não sou eu, é ela
e é bonito é eloquente é verdadeiro
mesmo que não seja
e a próxima estação é um sorvete, não
um big foda tasty dos grandes pra matar
a ansiedade de não encher
a barriga nessas franquias de pague a metade do dobro
então explode uma bomba na tv
fico sabendo que é lá onde há suicidas
que drama
um dólar a quatro, desço
comprar algumas coisas, a grana
a grana não alcança
pago no cartão, o cartão
sempre alcança
duas caixas de leite, uma
de cigarro, puta
tá quente essa porra
os dois ares de casa ligados
todas as portas fechadas
um colchão no meio da sala
e uma tv, o programa é
descansar os ombros na base do sofá
perder o controle entre três controles e aguardar
a próxima bomba
estourar
de cima
o cume
caga
regras

de baixo
o cume
dá motivos
pra subir
passei a franzir o cenho
quando acendi, há dois anos
meu primeiro cigarro
efeito disso
carrego dobras sobre o meu
rosto, uma pedra
piso uma pedra solta na vastidão
da calçada das seis
tenho cinquenta reais
no bolso e não consigo
troco
dizem: é um exagero
moço
o suor cascateia pelas minhas
dobras, apago o cigarro
rio na testa
confesso comigo mesmo
sério por todo o corpo
na minha ideia, sorrindo
é quase impossível secar por
completo
os líquidos que
produzo enquanto
caminho
inúmeras combinações podem ser feitas para atingir
para se alcançar o orgasmo.
inocente na minha condição de ingênuo
depois de anos escondidos
pus os fones no ouvido
e subi passo a passo pela borges, a avenida
sinaleira, caminhões de gente daqui
e do outro lado
pra cruzar, atravessar uns
aos outros, no ouvido
no one knows, mas eu sei
sinaleira aberta, pesa a música
todos enloquecem na
no one knows, mas eu sei
todos se vuelven locos na avenida
deve estar rebolando só de raiva, a shakira
mas eu sei, no one knows
na mão, um cigarro
no pulmão, o verdadeiro estado de
vítima, já esquecia: combinações
fone cigarro caminhões de gente e de carro
no one knows, mas eu sei
não é difícil arrepiar o corpo
sentir a carne toda a carne mole
e ainda assim, um disparo:
no one knows, e eu sei
orgasmo
há luz naquela janela
tenho tempo
busco no bolso a chave
celular cartão carteira de motorista moeda porra chave
isso, chave
meto no troço, giro
bip de porta aberta, bato
segunda chave
qual é mesmo, abro
segunda porta
bip de porta aberta, bato
há luz naquela janela
térreo, me lembro
não há elevadores no prédio
escada, são sete andares
tenho tempo, caminho corro
passo de degrau duplo
primeiro andar
não conheço os vizinhos
pode ser que sejam bacanas
pode ser que estejam
escadas, passo duplo pulo
há luz naquela janela
quarto andar, vou rápido
vultos vidas escorrem por debaixo
das portas tapetes de boas vindas cheios de merda
de fora
quinto, sexto
passo corro pulo caminho duplo
é o sétimo, respiro
profundo, já tenho
desde o térreo
a chave certa na mão
na argola, o dedo
chave
meto no troço, giro
escuro
sempre escuro, entro
tateio o concreto nem tão frio
é a pintura, um metro
interruptor
acendo, tenho tempo
e mesmo assim
sendo
há luz naquela janela.
quando a gente tá de passagem
todas as pequenas coisas
todas essas solitárias e pequenas
coisas que
se nada fosse tão temporário
seriam apenas coisas pequenas
todas elas são
de um peso olímpico
meu exercício é trocar a posição
pra formigar
menos
nos conhecemos no meio da crise
tiramos selfies em dois ou três protestos
riscamos nossos nomes dentro de um coração
numa árvore que foi partida dias depois
cantamos juntos sobre como nos conhecemos
na crise
e a crise continua, nós
nós dividíamos um assento no ônibus, os dois
quando tinha dois, dividi
meu ombro
subimos ao topo da montanha mais de uma vez, juntos
subi outras cinco, você
não sei
vimos teatro, fizemos
você sabia atuar, eu admiro
no cinema, esquecemos de levar
casacos, mas tínhamos
pele
e com os filmes, choramos
você sabia chorar como ninguém, eu admito
nós repartíamos a comida que não tínhamos
inventávamos salmões de sardinha e
ríamos
você continua rindo, eu adivinho
conhecemos nossas mães
a minha ainda gosta de você, a sua
as suas fotos continuam no meu note
na real, eu não voltei a ligar o pc
só sei que estão
e isso deve significar alguma coisa
ou não.
agradeço aos arquitetos que
me proporcionam a abstração
ao olhar pra cima e aos
pedreiros que puseram as
pedras quando olho pro
chão
deixei de rezar por preguiça
agora tenho preguiça por convicção
mais tarde, quando
eu for tirar a tua calcinha e
você disser
eu não uso
como a perna de um amputado
que já não tem perna
mas sem a gravidade que é
não ter
abrirei caminhos pelos pelos
e com a vela na ponta dos dedos
profundo, te singrarei
compara teu filho a um chuchu
produzes a textura carinhosamente
ele entende
mas quem dá o gosto não és tu
subir ao palco
cravar novos pregos na madeira antiga
é uma outra peça que se inicia
uma que falte ou que sobre
em breve saberemos
decorado o texto, a fala é o de menos
você está pronto para o primeiro ensaio
tem vinte e poucos anos
e errar não é errado
as cortinas já estão abertas
sempre estiveram, à sua espera
o próximo passo é um salto
e você percebe que aí está o vão entre
os seus pés e os que ali estão
sentados
discutindo sem abrir a boca sobre o quão
exagerados são seus movimentos de braço
como é capaz de levantar as sobrancelhas sem mover
as orelhas?
ele não deveria estar fazendo teatro
olhe o tamanho dos seus cadarços!
mais tarde virá um tropeço
você sabe que não será acidental
e se fosse, entenderíamos
é só o começo
aprendemos juntos a controlar a respiração
empurrar o abdômen, abrir as costelas
encher o pulmão
não subir os ombros a não ser que não se importe
mas você se importa
pois então
chegou o instante do pulo
o momento de ser ou não ser eis combustão
força na planta do pé
aquecer os tornozelos
agora é a hora de nossa sorte
amei, alguns irão dizer
porém você não prevê:
saltar antes que seja tarde sobre o maior número de cabeças
que alcançar
erguer-se por cima de outros ombros e
certificar-se de que algumas dessas, cabeças
irão rolar.
os outros sempre parecem ter voz de certeza
e quando eu falo
sai tudo cortado
só não sai
quando eu me pareço
aos outros
encontre num emaranhado de páginas perto
uma palavra que defina seu espírito
porta
sinta vibrar em seu intestino
a ânsia, o mal de não estar
bem, busque na palma da mão as linhas
o traço que define a curva
pegue a primeira saída à esquerda
porta
um gato exala os vapores da tua
fossa
entre de mansinho no escurinho de outras
saias
coce as pegadas de um recém pisado
assuma a venda do corredor de cigarros
não fume o vermelho
venda mais barato
as damas de branco procuram o preto
as de preto, o branco e jantam
saia da caixa de sapatos que contém botas
o mundo é maior que o teu parto
sinta o gosto do sêmen na ponta dos dedos
chega de tabelinha
mergulhe no desespero
atrase o voo das gotas de chuva
cante serenatas olhando de cima
socando o de baixo
arrede as cadeiras da sala de jaula
pinte um tapete vermelho de preto
existe um funeral ali perto
porta
palavras ainda boiam na superfície dos teus olhos
crave na unha a faca dos teus desejos
despeje a glória dos bezerros sobre as pernas
porta
haverá uma fogueira
dois litros e gramas de álcool
um último fósforo pra se desperdiçar
risque na língua
mas antes
espere secar
teu rosto é lindo
nesse espelho
que não é espelho
e é um quadro
de um rosto
que não é teu rosto

mas é
absolutamente
lindo

esse teu gosto
lágrima é chuva
de dentro pra fora
o grito
do fundo do poço
tem que ser mais alto
me apaixonei pelo branco dos teus olhos
e por isso tu é linda
quando não pisca
fumo porque bebo
bebo porque vivo
vivo porque muerto
a dúvida mortal
entre o aqui e agora
e o lá
quando for a hora

versos para uma ruimva

teu cacho é fogo no lençol
brasa de areia queimando
no deserto dos meus polegares
um fio de cabelo cai, todos os
homens estão atentos, todas as
peneiras estão preparadas
não se assustem
é apenas uma pequena chama que se apaga

mil duzentos e cinquenta e três bombeiros deixaram de
trabalhar
dois cinzeiros caminharam até o lugar
onde há fogo, há cinzas
tuas curvas
capilares
minhas
e uma dose de álcool
com gelo
pra temperar
ayer fue engraçado
me lancei na estrada
agarré un táxi
le pedí ao cara que me llevara
hasta la vista más linda de caracas
y, después de dos horas dando voltas pela cidade,
no sé si por dúvida
o pra aumentar todo el trajeto
me dejó en la porta de mi cuarto.
abrí devagar
y divagando estabas
ahí deitada na minha cama
y - no sé como el taxista sabía y tampoco sabré - que,
por supuesto,
esa era la vista mais linda
de toda la capital de venezuela
era solo tú
en mi cama
sobre os lençóis
embaixo das cobijas
era solo tú
só era
noite. entra a música. é uma salsa. todos sentam nas cadeiras em torno da mesa. colocam os dedos sobre a placa de mármore. a música aumenta. começa a dança. é um desfile. um desfile de modelos de dedos. temos dedos negros, brancos, amarelos, pequenos, grandes, de todos os tipos de unhas, com ou sem esmalte. é um desbunde fashion de indicadores e médios sendo aplaudidos por polegares sujos que não entendem nada de moda. a passarela de mármore é curta. um dos dedinhos resvala e, por sorte, a palma dessa mão acaba evitando um grande dedastre. mas, infelizmente, respeitando as exigências estipuladas pela confederação internacional de dedos modelos, as regras do concurso são claras: nesse desfile, só vale dedo. o dedinho, triste e sem polegar que lhe apontasse, saiu de mãos abanando.
o meio do muro é um caminho
que se escolhe
até ter força suficiente

para derrubá-lo
atiro pra todos os lados
como o soldado que vai caindo
morto