Orelha do livro

Aqui neste excesso de capa
estou eu dizendo que esta nar-
rativa é grandiosa, que car-
rega de perto o leitor, pene-
trando no misterioso mundo
do protagonista e exigindo
que as páginas sejam devo-
radas do início ao fim sem
se pregar um só olho. Repito
isso em outras palavras, para-
fraseio. Comento algo sobre
o estilo único do autor, ressal-
tando o fato de o narrador
discorrer sobre a identida-
de do indivíduo mergulhado
nos conflitos urbanos da
pós-modernidade alienada.
Faço um jogo de palavras
com o título, que é para dar
a ideia rasa de que li com cer-
ta profundidade; cito grandes
clássicos, comparo, adivinho
futuros Machados, Borges,
Kafkamões, Cervantes, po-
nho a figura do autor entre
eles, fecho com uma frase
de efeito e tudo deixa muito
claro que abro caminho não
apenas para a obra, mas pa-
ra quem a escreveu e dese-
ja escrever orelhas para ou-
tros que ainda não entraram
no círculo.

Assino,
deixo um espaço em branco
e, mais tarde, surgiro ao edi-
tor uma pequena biografia
minha em três palavras que
remetam a mim o máximo
de autoridade possível, e tu-
do isso em [i/]itálico[/i].