Espaços na cabeça

Tem espaços na cabeça que não vão embora nunca. Ainda mais quando nós tivemos que imaginar um. Pega um exemplo: uma vez, escrevendo uma novelinha, percebi que tinha escolhido colocar um guri e o vô dele, personagens dessa história, num quarto que eu já tinha imaginado antes, em outro momento, um quarto conhecido. Foi depois de alguns dias que me dei conta: o cômodo era o mesmo em que o personagem central do livro do Raduan Nassar, o Lavoura Arcaica, passa maior parte do tempo. Lá ele também recebe o irmão, que ficou de resgatar e trazer de volta o filho pródigo da família.

Espaços como esse são únicos, mas volta e meia aparecem.

Hoje, lendo À mão esquerda, romance do Fausto Wolff, aqui na casa da praia dos tios da Alice, voltei a acessar um espaço imaginado. A casa da infância de Pérsio, o protagonista do Wolff, é esta. É esta, mas há mais de muitas décadas, imaginada por mim a partir do quadro que está pendurado numa de suas paredes: uma casa simples de madeira, com a cozinha nos fundos e muita grama, muito mato em volta. No canto do terreno, lá atrás, uma caixa sob telhas de barro: uma patente.

O monstro

Rafael Cadenas

O homem sem pele levanta tarde, evita as armadilhas comuns, escapa de toda relação.

Qualquer contato, que em nós só produz certa sensação de perda, nele pode se transformar em um desarranjo prolongado. Não é um homem inteiro, mas uma máquina exposta com todas as suas engrenagens, mecanismos, truques à mostra.

Como as sensações não chegam a ele de forma atenuada mas com toda a força, pode-se dizer, em outras palavras, que vive à queima roupa.

Sem métodos, sem rodeios, sem etapas, do jeito que as coisas vêm ele as recebe.

O que ele entrega também surge assim, sem mais intermediário do que o ar.

Nem sequer a linguagem mitigadora, que desarma, que apazigua, que oculta, tirando o poder das coisas, a ele serve para algo, porque vive em significados.

Não usa amortecedores: habita ondas drásticas que para nós parecem devastadoras.

Mas esse homem incompleto pode servir - e já serviu - de medida provável para calibrar qualquer normalidade, submetê-la a julgamento e decidir se é suficientemente cruel para admiti-la, embora os erros pequem por exigentes.


Sem se dar conta, costuma se enredar. Sofre de mal-entendidos até cômicos. É vítima de equívocos em situações corriqueiras.

Esse homem complica, complica.

Se lhe entregam um pequeno labirinto, um labirinto de brinquedo com poucas voltas, com um número razoável de armadilhas, com surpresas fáceis de antecipar, em poucos dias o transforma em um emaranhado órgão de tortura.

Ninguém explica como pôde viver, crescer e se desenvolver, mas que ele existe é um fato consumado.

Até problemas ele cria!

(Um deles é revelar os horrores do lugar onde vive, mostrando as marcas que deixa nele.)

Em síntese, se mantém. Faz aquilo que todo mundo faz ainda que pareça um milagre - e até há ocasiões em que parece mais resistente, menos ambíguo, mais correto que nós, os homens acabados.

Costuma se lamentar, mas não se sabe quando isso acontece. Tampouco se conhece o dia em que mais sente o tormento.

Ele sabe que esse hábito maligno torna mais penosa sua deficiência.

Os homens completos não notam, à primeira vista, seu déficit. Muitas vezes levam dias para descobri-lo, mas uma espécie de irresolução do homem esfolado os coloca no caminho das pistas. De repente, percebem que é inusualmente sensível. Começam a chamá-lo de poeta, embora esteja longe disso; é apenas um homem desabrigado. O engano poderia se sustentar, mas, como ele não faz nenhuma demonstração, gritam: “Fraude. Nem sequer fala”. Um dia, ele é pego, descoberto, desmascarado. “Não é artista de verdade”, anunciam. “Simplesmente lhe falta algo. Tomamos como arte uma simples falha biológica. É um impostor, um desaforo para os verdadeiros criadores.” Então jogam-no em um poço, o poço em que sempre esteve, onde se espera que possa (já que não cria pele) educar uma crosta que faça suas vezes.


É possível dizer que, assim como carece de pele, tampouco tem moral, ou que ela é frouxa, substituível, vaga. Ele a substitui por uma espécie de vagueza que mal lhe serve de suporte.

É que não pode se permitir, não pode se dar ao luxo de ter moral. Se sua filosofia é frágil, sua memória é forte. Em seus complicados vincos, os fatos se estancam. A esse homem não é permitido esquecer.

Há vezes em que usa sua falha como sinal de distinção. Quando alguém não a nota, ele se apressa a assinalá-la com alguma frase primitiva.

Não deixa passar muito tempo sem aludir a essa marca de nascença.


Se o repreendem por sua falta de agressividade, o quase-homem não encontra uma explicação satisfatória. A ira, a ira compacta é nele fatalmente assunto interno.


No entanto, tem compensações. O mal-estar da separação intransponível, o desconforto de se manter “em forma”, os inconvenientes de ter um nome, as ambições hierárquicas, a defesa da ordem, são problemas que não o afligem.


Por excesso de cautela e de perplexidade, sem saber ou de propósito, é um ser desalmado que oscila entre cálculos falaciosos e imprevisões esmeradas. Sua falta de veracidade é um obstáculo que não consegue vencer. 

Viver textualmente, conforme o curso das coisas, está fora do seu alcance.


Gosta de se fazer de durão. Como em seu caso o sofrimento não é um mau hábito mas uma rotina, já não lhe chama muito a atenção, e é um pouco dado a falar disso.


Esse homem inacabado se vira com certa desenvoltura. É difícil reconhecê-lo à primeira vista. 

É comoventemente comum. 

Falta-lhe a pele, a pele adestrada, a pele ensinada nos textos duros, o que lhe dá uma qualidade ilimitada, mas o torna facilmente expugnável.


Embora tenha acesso a lugares aonde só se chega desguarnecido, é presa fácil de todas as invasões, está feito para receber de frente a insegurança, e tende a lacerar-se mais do que aceita a poesia.

In Falsas maniobras (1966)
Trad. Lucas Reis Gonçalves


Passatempo

Rafael Cadenas

Durante a manhã, exploro as paredes do meu quarto em busca de novos buracos.
Coloco neles papelão, trapos de roupa inservível, restos de jornais.
Em cima colo pequenos bilhetes com recados veementes.
São conselhos apressadamente anotados em letras garrafais.

In Falsas maniobras (1966)
Trad. Lucas Reis Gonçalves

[Na tua língua]

María Auxiliadora Álvarez

Na tua língua
bebo
o frio
Volto
a comer
da pedra
que você me dá
Uma escuridão
na água
é meu único
corpo
A ferida
é
um animal
vivo
na boca

In Ca(z)a (1990)
Trad. Lucas Reis Gonçalves

Um tempo atrás

Rafael Cadenas

Um tempo atrás, costumava me dividir em inúmeras pessoas. Fui sucessivamente — e sem que uma coisa atrapalhasse a outra — santo, viajante, equilibrista.

Para satisfazer aos outros e a mim mesmo, conservei uma imagem dupla. Estive aqui e em outros lugares. Criei espectros doentios.

A cada momento de repouso, assaltavam-me as imagens de minhas transformações, levando-me ao isolamento. A multiplicidade se lançava sobre mim. Eu a conjurarava.

Era o desfile dos habitantes desunidos, as sombras de região nenhuma.

No fim das contas, as coisas não eram bem o que havia imaginado.

Sobretudo, me faltou entre os fantasmas aquele que caminha sem que eu o veja.

Talvez o segredo da serenidade esteja aí, entre linhas, como um lampejo sem nome, e minha soberba injustificada dê lugar a uma grande paz, uma alegria sóbria, uma retidão imediata.

Até lá.


In Falsas maniobras (1966)
Trad. Lucas Reis Gonçalves

Diálogo de ruptura

Júlio Cortázar

– Não é tanto que já não saibamos
– Sim, ainda mais isso, não encontrar
– Mas quem sabe tenhamos buscado desde o dia em que
– Talvez não, e mesmo assim cada manhã que
– Puro engano, chega o momento em que a gente se olha como
– Quem sabe, eu ainda
– Não basta querer, se além disso não tem prova de
– Está vendo, de nada vale essa segurança que
– Certo, agora cada um exige uma evidência frente a
– Como se beijar fosse assinar um atestado, como se olhar
– Debaixo da roupa já não espera essa – pele que
– Não é o pior, penso às vezes; tem aquele outro, as palavras quando
– Ou o silêncio, que então valia como
– Sabíamos abrir a janela apenas
– E esse jeito de virar o travesseiro procurando
– Como uma linguagem de perfumes úmidos que
– Você gritava e gritava enquanto eu
– Caíamos numa mesma avalanche cega até
– Eu esperava escutar isso que sempre
– E brincar dormir entre nós de lençóis e às vezes
– Se teremos insultado entre carícias o despertador que
– Mas era doce levantar e competir pela
– E o primeiro, empapado, dono da toalha seca
– O café e as torradas, a lista das compras, e isso
– Tudo segue igual, daria pra dizer que
– Exatamente igual, só que em vez
– Como querer contar um sonho depois de
– Passar o lápis sobre uma silhueta, repetir de cor algo tão
– Sabendo ao mesmo tempo como
– Oh sim, mas esperando quase um encontro com
– Um pouco mais de geleia e de
– Obrigado, não tenho.

In Un tal Lucas (1979)
Trad. Lucas Reis Gonçalves